quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Como gostaria de te ter encontrado...

Barbarela


Como gostaria de te ter encontrado, na minha busca do imaginário...

Como gostaria de te ter encontrado, antes que as palavras se despissem...

Como gostaria de te ter encontrado, antes que aparecessem as brumas da Vida...

Como gostaria de te ter encontrado, antes que o equilíbrio fosse o próprio desequilíbrio...

Como gostaria de te ter encontrado, antes que o tempo, atento e desatento, te viesse buscar...

Como gostaria de te ter encontrado, antes que o meu corpo doesse de achado...

Como gostaria de te ter encontrado antes, quando pudesse ter refletida a luz do teu olhar no meu...

Como gostaria de te ter encontrado, «Saudade», antes que me tivesse sido ofertado o teu perfume...

maria belém

sábado, 17 de dezembro de 2011

«Amor é fogo que arde sem se ver»



«Amor é fogo que arde sem se ver»,
É desejo que s'esconde atrás do olhar,
Quentura que nos invade sem querer
Qual febre que, de mansinho, vem beijar


É coração ansioso, perturbado,
De quem caminha na vida distraído,
Indo sempre, num turbilhão, apressado
Sem ver quem se lhe oferece num gemido


Se nos olhos desabrocha o amor,
Como rosal florido se abre em flor,
A alma sacia a sede de desejos


Ao abarcar nos seus braços um abraço,
Terno ninho de palpitante cansaço,
Entrega-se à paixão, lenta, de mil beijos

maria belém

sábado, 10 de dezembro de 2011

O bébé bisonte que não chegou a nascer (pequeno conto)


Numa extensa pradaria dos Estados Unidos da América, uma manada de bisontes andava a deambular, alimentando-se, correndo, lutando, exercitando os seus vigorosos corpos, enquanto algumas fêmeas, prenhas, pastavam calmamente. Algumas delas foram parindo as suas crias sem a menor dificuldade. Já tinham nascido muitas delas e as mães, cuidadosamente, lambiam-nas para as limparem dos restos do parto, enquanto os seus bébés procuravam as tetas, nas barrigas, onde, ansiosos, desejavam mamar. Depois de se saciarem, ainda um tanto desajeitados, davam pequenos saltos e corridas, felizes, como que a saudar a Vida.
Mas, entre elas, havia uma fêmea que estava, há horas, em trabalho de parto sem conseguir parir. A sua cria tinha nascido mal, estava entalada pois apareceram, em primeiro lugar, as patas dianteiras não se vendo a cabeça. As outras fêmeas procuravam ajudá-la mas nada podiam fazer.
Afastou-se alguns metros da manada, andando de um lado para o outro, cada vez mais fraca, foram horas e horas de sofrimento. Por fim, extenuada, deixou-se caír no chão e aí se deixou ficar até que a morte, pesarosa, as veio buscar, a ela e à sua pequena cria que não chegou a nascer.

Então toda a manada se aproximou para um derradeiro adeus. Um a um foram colocando os focinhos sobre o seu corpo como que a despedirem-se. Um deles, talvez mais inconformado, levantou uma pata e, levemente, raspou-a sobre o seu corpo inanimado, possivelmente tentando que ela se levantasse.
Depois desta triste cerimónia, afastaram-se, lentamente, deixando que a natureza fizesse o que tinha a fazer.

maria belém

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tinhas mesmo de ser tu...


Tinha calcorreado meio mundo, visto muitas culturas, muitos seres diferentes, conheceu o que de bom e de mau existe na humanidade, fez amizades, teve encontros, desencontros e, no fim, algo de novo aconteceu, um recomeço talvez.

Há muito tempo que se tinha mudado para um lugar onde pudesse estar em comunhão com a natureza, era um pouco «bicho do mato», solitária, gostava de apreciar os dias de sol que aquecem almas desoladas de amantes, com seus mil beijos ardentes de amor. Quando ele se punha, sua alma ficava  num meditar contemplando os mistérios tão cheios de beleza.
Nessas alturas sentia uma leve mágoa, uma tristeza que doía, em si, baixinho, por não ter um carinho, o consolo de alguém.

Mas um dia aconteceu o inesperado quando, extasiada, debaixo de um sol escaldante, viu aquele que, teve a certeza, seria a sua alma gémea.
Então «menina e moça» pensou que todos os sonhos que tinha embalado se estavam a tornar realidade. À volta deles pétalas de flores exalavam um aroma estonteante e toda a Natureza sucumbiu a uma calmaria grave e sensual naquele fim de dia que os lançou numa quimera ardente.

Tinhas mesmo de ser tu...

                                               disseram em uníssono.

maria belém

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Pequena Estrela


O Senhor do Universo já tinha reparado nela, era uma estrela pequenina, muito brilhante mas que não gostava de dar nas vistas. Enquanto outras procuravam dar-se a conhecer fazendo parte de uma ou outra constelação ou aparecendo em noites claras sobre um céu cor de anil, salientando-se no firmamento, ela, tímida, escondia-se por detrás das outras estrelas para passar despercebida.
Olhava, à sua volta, curiosa, procurando um mundo de beleza procriado, vendo Deus naquela paz imensa, no brilho resplandecente dos astros, no manto ingente da noite.
Era muito bela, cheia de encanto e doçura e o Senhor do Universo já tinha reservado, para ela, uma missão.

Tinha ouvido falar num Messias anunciado pelo anjo Gabriel a uma mulher, Maria, e a seu marido, José, um casal que vivia em Nazaré da Galileia.

Como o imperador Octávio César Augusto tinha promulgado, nessa época, um decreto que obrigava todas as famílias a recensearem-se nas suas respectivas terras natais - e Maria já estava grávida -, José decidiu partir com ela para Belém. Embora a viagem demorasse aproximadamente cinco dias, foi justamente nessa jornada que Maria, já no fim da gravidez, entrou em trabalho de parto.
Como não havia lugar em nenhuma hospedaria, só lhes restou encontrar abrigo num estábulo, no qual nasceu Jesus, o Messias anunciado.  O menino foi envolto em faixas para que ficasse aquecido e deitado numa manjedoura cheia de palha. Uma vaca e um burro que se encontravam no estábulo ajudaram, também, com o seu quente bafo, a aquecer o local.

Alguns pastores que se encontravam nas proximidades com os seus rebanhos, foram abordados por um anjo que lhes anunciou o nascimento do Messias, indicando-lhes o lugar onde se encontrava.

É aqui que a nossa pequena estrela entra com a sua missão. Foi ela a escolhida pelo Senhor do Universo para  iluminar e guiar três Reis Magos, vindos do Oriente.
Esta estrela não podia ser uma estrela comum visto que seguiria um percurso invulgar de Oriente para Ocidente, sempre diante dos Magos. Seria como um ponto luminoso, uma estrela que permitiria aos Reis Magos seguirem-na para encontrarem o futuro «Rei dos Judeus».

Herodes, que na altura governava a Palestina, ao ter conhecimento de que uns reis, vindos do Oriente a Jerusalém, perguntavam onde tinha nascido o «Rei dos Judeus» - pois tinham visto e seguido a sua estrela desde o Oriente, querendo adorá-lO -, chamou-os e recomendou-lhes que ao localizarem o menino o avisassem para, também ele, o ir adorar.

Depois do encontro com Herodes, os três Reis Magos viram novamente a estrela no céu que os guiou até ao local onde se escondiam Maria e José. Ao chegarem, prostraram-se e adoraram o Messias deixando-Lhe os seus presentes: ouro, incenso e mirra.

Logo que os Reis partiram, José recebeu a visita de um anjo, em sonho, que o avisou que Herodes mandou procurar o Menino para o matar, assim como mandou matar todas as crianças de Belém e arredores, de dois anos de idade para baixo.
Então José fugiu com Maria e Jesus para o Egipto permanecendo lá até à morte de Herodes. Depois da morte deste retiraram-se para uma das regiões da Galileia.


A pequena estrela, depois daquela missão, voltou ao seu lugar no firmamento. Não se envaideceu nem um pouco, antes pelo contrário, sentiu, ainda mais, que fazia parte do coro de muitas vozes da Natureza, do giro infindo de todos os astros que, com a sua beleza, fazem  com que Deus ilumine as almas tristes, depositando nelas uma luz, rasto de uma sinfonia plena de Amor.
maria belém


Nota: Neste conto, a preocupação não foi a História Bíblica mas só a história da pequena
            estrela.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Outono

mjm

O Outono melancólico nos chegou
com seus ventos, seu arrolhar de chuvas,
folhas a caír em cores e tons de uvas
perfumam o solo, eflúvio que ficou


Como um vôo de pássaro aflito
que num espaço, insano, de dor se perdeu,
o sonho nasce e morre como um grito,
joguete de um destino que se rendeu


No cálice da alma amou-se a Primavera,
com o Estio veio um ardor fremente
mas o céu do Outono trouxe a quimera
nascida da saudade de um amor ausente

maria belém 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Esqueci-te!!!


Esqueci-te!!!

Esqueci-te?...

Quando acordava eras das primeiras pessoas em quem pensava, por isso o parecer impensável que tenha acontecido.

Até fico em dúvida...

Como é esquecer uma pessoa?

Não pensar nela a todo o momento, não sentir qualquer preocupação sobre com quem ela está, não ficar angustiada se não souber do seu paradeiro, olhar para a sua fotografia e ficar indiferente?
Serão estes sintomas suficientes para dizermos que esquecemos?

O processo foi tão lento que nem me apercebi...

Há muito tempo - que já lá vai - me dizias: «não me esqueças nunca», o que procurei fazer, afincada e persistentemente, durante anos, apesar da indiferença, do silêncio prolongado, das desfeitas, da falta de amizade.

Mas hoje acordei e tu não estavas lá...

                     será que, finalmente, te esqueci?...

maria belém

sábado, 8 de outubro de 2011

Vozes Vindas Dum Poema


Num mundo sem palavras
Perdidas na multidão,
Vozes vindas dum poema
Afogam a solidão

São como ondas que correm
Da poesia pro mar,
Muitos dias, muitas noites
De um solitário amar

Para onde é que navegas?
Aproxima-se a escuridão.
Desfaz teu feitiço, ó Poeta,
Leva contigo a ilusão

maria belém

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O que nos resta...


Semeei-me de afagos, todos os que te quis dar um dia em tom brando, conjugados num momento certo com a sabedoria da fruição. E não falo só de paixão mas de outras belezas da vida, um poente assistido a dois, uma paisagem, uma simples refeição, um passeio de mãos dadas.

Muitos anos tiveram de passar para que compreendesse o apreciar de um momento, uma companhia, uma conversa, uma viagem ou até um silêncio.

Quando se é novo pensa-se que se tem a vida toda pela frente e nunca há tempo para estarmos connosco e muito menos com o outro em essência, os pensamentos fogem para outros lugares e nunca se está onde se está, nem aquilo que se tem é o que se tem.

Só quando se é mais velho, e o tempo começa a escassear, nos apercebemos de que é preciso ter gasto a vida para perceber a morte e que necessitamos é de harmonia e paz.

Resta-nos, sim, a paixão da alma.

maria belém

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Encontros/Desencontros de Almas


Duas almas, fugidias, soltam-se do mistério que é a Vida, sequência de encontros/desencontros em várias épocas, em vários lugares.

Num caminhar lado a lado, caladas, o seu «Eu» distinto do outro «Eu».

A vida é como uma estrada a percorrer e as almas, desprovidas por vezes de sentidos, caminham sem ver todas as maravilhas que lhes são oferecidas.

Sonhos e canseiras voltam a viver-se, não percebem, no presente, as lutas que sofreram no passado nem se lembram do que ficou gravado nos seus Seres mas, no entanto, os sinais desse passado deixam-lhes, muitas vezes, as almas inquietas.

No segredo dos dias de mais uma viagem, sentem como que um sopro de alguém que lhes foi próximo, um secreto amigo, talvez, mas o coração jaz, calmamente triste, não deixando que se apercebam do mágico «encontro» que terminará no sonho, na ilusão.

Alguém,mesmo ao seu lado,  não conseguiu descobrir um olhar, uma súplica de nostálgica amizade. Então,  num anseio palpitante de desilusão, despede-se, mais uma vez,  pedindo à Noite que lhe abra os braços, deixando-se esvaír num derradeiro cântico de amor.

maria belém

domingo, 25 de setembro de 2011

O amor e a eternidade


Sua alma tinha ficado num sono quase eterno, pálida e fria mas, como na história da «Bela Adormecida», um príncipe, envolto em palavras mélicas e quentes, pousou o néctar da sua escrita nos seus lábios roxos de frio.

Acenderam-se no seu rosto o fogo das cerejas, sua boca ficou rubra como uma papoila palpitante, a florir, e seus olhos abriram-se para a vida num ardente êxtase de amor.

Aquelas palavras, em boca silenciosa, palavras ciciadas ternamente, como um afago, perturbaram a sua alma.

Nunca lhe pediu que a amasse, refugiou-se num silêncio a querer falar e inventou versos dispersos, a soluçar...

              num murmúrio, num gemido quase desfeito, num verso imenso de ansiedade, disse-lhe que o seu amor seria por toda a eternidade...

maria belém

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As palavras que te diria...

andrew-gonzalez

Num sossego de alma, dir-te-ia palavras que ficaram guardadas no tempo...

   ... palavras envergonhadas, esquecidas no âmago do Ser...

  ... palavras sentidas, adormecidas de tanto esperar e que embalaram, no silêncio, um sonho lindo.

Palavras que voariam, como uma ave, para longe do espaço em que habitam, num ardente anseio da alma.
Na felicidade que fingiam, como barco que afundava em alto mar, pediriam socorro mas os dias monologavam e os sonhos, feitos uma mentira, perder-se-iam num mundo de incertezas.

A vida, não trazendo ao viver qualquer mudança, destruiu nosso encanto de magia...


Mas a alma, num despertar, descobriu que na vida ainda pode existir muita madrugada nesse dom que o Céu nos concedeu, nesse nosso elo feito poesia.

maria belém

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cartas de amor


Já não se escrevem cartas de amor.

Agora enviam-se emails ou mensagens, via telemóvel, com palavras entrecortadas como se a própria escrita se sentisse envergonhada e soluçasse de saudade.


Uma carta de amor era como um botão de flor, segurava-se ternamente, aconchegava-se ao peito, inalava-se o seu perfume e, na noite de estrelas matizadas, numa ânsia juvenil, sonhava-se com cada palavra a voltear, a flutuar em espirais feitas espuma, sonhos a rasgar o véu de uma névoa de saudade.
E o vento da felicidade vinha acariciar, indolente, as madeixas de cabelo que caíam sobre o vestido, enquanto os rostos se afogueavam.

As palavras, como dardos amorosos, deixavam nos corações uma centelha de sonho que despertava para a vida.
Saboreava-se com os olhos, em deleite, cada palavra como se a folha de papel fosse o firmamento e as palavras fossem a luz com que o amado a salpicava.

Na madrugada luminosa, sobre a página de uma resposta, um coração, acalentado pelo mesmo sonho, voava penetrando nas nuvens do futuro.

maria belém

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sinfonia nº. 9 em ré menor de Beethoven


Adaptação do poema de Friedrich Schiller, «Ode à Alegria», feita pelo próprio Ludwig Van Beethoven


«Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!»

Miragem no tempo


Canto a luz do teu olhar,
mergulho na magia do teu sorrir,
enleio-me nas ondas do teu cabelo
e, aí, me deixo ficar

maria belem

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

[...] 2


... Fiquei algum tempo deitado na cama, sem conseguir pensar em nada. Durante um momento isso foi doloroso, depois achei agradável. Não estava a adormecer, estava a ficar sem pensamentos...

[um pequeno excerto do livro de Peter Handke: «Uma Breve Carta para um Longo Adeus»]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

E se fosses a minha maré cheia?


Se fosses a minha maré cheia, mar que me embalaria no vai-vem das suas vagas, ora me abraçando, ora me deixando,
                            
                           ficaria à espera, de olhos semi-cerrados, que uma nova vaga, feita de doçura e piedade, viesse afagar minha alma, lambendo-a com seus lábios húmidos de espuma, ansiosos, deixando-a arrepiada de desejo...

depois voltaria a deixar-me...

                            mas, com a força e a fúria da saudade, correria novamente para mim, enrolando-me nos seus longos e esbeltos braços, palpitante e ondeante, revolteando-me num remoínho de prazer.

Ao meu redor  far-se-ia silêncio.

Como um berço onde a vida nos pousa, dormiria, num abraço lânguido e doce, por toda a eternidade.

mariabelém

domingo, 11 de setembro de 2011

Agradecimento

Peço desculpa de estar a agradecer, por aqui, os comentários que me têm sido feitos mas, não sei o porquê, não consigo fazê-los no sítio devido.
Obrigada, Fernanda, por estares sempre presente e obrigada, Skocky, pelo belíssimo poema de Fernando Pessoa e, também, pela sua disponibilidade para me ler, o que é um privilégio.
Um grande abraço

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Quando me perderes...


Quando me perderes
procura-me no âmago do teu silêncio,
nas palavras que ficaram por dizer,
na ausência de gestos simples, como o toque da ponta dos dedos,
no vácuo terrível da tristeza,
nas músicas gastas por tanto as ouvires,
no fundo dos teus olhos cheios de magia,
no sorriso amargo-doce de outras mulheres,
na luz difusa de um sonho,
na saudade do que nunca existiu,
no desejo de me ver junto a ti,
no perfume de uma flor que o vento beija docemente,
nos muitos momentos que estivemos juntos, mesmo que só em pensamento...


Se não me encontrares
procura dentro da tua alma,
estarei lá a fazer-te companhia.


maria belém

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ver o mar...

Léah MorMac

Foram ver o mar.

Não que fosse a primeira vez que isso acontecia mas agora era diferente.

Não se viam há muito tempo, há demasiado tempo. Muita coisa tinha acontecido nas suas vidas, outros amores, desamores, momentos felizes e infelizes.
Andaram perdidos no espaço e no tempo até que um dia perguntaram a si mesmos se andariam ou não na rota errada dos seus destinos.

Então, a neblina que preencheu, durante tanto tempo, o côncavo das suas almas, levantou, deixando a descoberto um céu azul de saudade.

Estarem juntos, outra vez, era como pôr pé em terra firme, segurar, de coração aberto, o mundo...

Olharam-se... o mesmo sorriso entre travesso e carinhoso daqueles olhos castanhos escuros, amendoados, feitos veludo...

Entendem-se sem palavras, como é bom degustarem aquele momento, aquela companhia, aquela pequena viagem, aquela conversa sem palavras...

Lentamente puxa-a para si e beija-a, suavemente, na boca. Enlaça-a pelos ombros e, numa comunhão de almas, ficam a ver o ir e vir das ondas do mar...

maria belém

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Cigana

Júlia Molico

Numa dança sublime, sofrida,
no delírio de sons realizados,
esvoaça, sensual, bela cigana
deixando desejos germinados

Os passos ao criarem novos passos
despertam nos seres outras visões,
sonhos irreais de amores ardentes
acendem-se, em fulgor, nos corações

O prazer da vida a voltear
ao redor daquele corpo apetecido,
abraça-o com dor e alegria
num desejo de alma bem sentido

Naquela dança estonteante de beleza,
que só a arte consegue ultrapassar,
veste o seu eu e, em louca fantasia,
retrata o sentir do amor a despontar...

maria belém

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Em algum lugar do passado


Em algum lugar do passado, numa sala de segredos bem guardados, baloiçam murmúrios  como sons de harpejos  de um violoncelo a gemer, de um violino a chorar e, ainda, em harmonia, o som nostálgico, cheio de alma e magia, de um piano no breve instante em que o amor desponta.

Num cofre, em forma de coração, há beijos, afectos, ternura, lágrimas do feitio de pérolas, jóias que nos contam das tristezas e alegrias que ficaram lá atrás, no passado sempre presente.

Lá ficaram, também, uma alma ardente, deslumbrada, frustrada, sonhos que ficaram por abrir, sorrisos que deixaram de florir, momentos famintos de ideais.

Os anos passaram, alguns elos de amizade falharam e o viver a vida tornou-se incerteza.


Mas as almas, sempre ansiosas, sempre famintas de amor, refulgem e, numa ânsia louca, apetecida, desejada, entregam-se a um novo começo de Vida com ardor...

e então, novamente são amantes, renascidas que se sentem na felicidade dada com amor, no trinar de novos  sonhos acalentados, novas miragens, novos anseios que nelas crescem,  roubando-lhes o mundo dos sentidos.

maria belém

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Afastar é o mesmo que esquecer


Mil noites...
Mil dias...
Mil sonhos...

vagueando pelas noites,
caminhando sozinha,
cansada de esperar o inesperado
que não chega nunca...

e os olhos fecham-se-lhe num sono
em que já não é ninguém...

Dia...

agora é a outra,
aquela que balança
entre a saudade e a esperança.

Pede que a abrace,
que se entregue nos seus braços,
que descubra todo o mistério que era
e deixou de ser
                           
                  e diz-lhe, suavemente, em pensamento:

                 «nunca te afastes, porque afastar é o mesmo que esquecer»

maria belém

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Almas...


«... os encontros mais importantes já foram combinados pelas almas
antes mesmo que os corpos se vejam...»

(Paulo Coelho)

terça-feira, 28 de junho de 2011

...até que um dia... (deixo assim para que cada um que me lê crie um fim segundo a sua imaginação)

João Leitão

Era naquela estação de combóios que se viam todos os dias, à mesma hora.

Olhavam um para o outro, davam os bons dias e cada um seguia o seu caminho.

Durante meses foi este o ritual, até que um dia...

maria belém

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Índio


Um dia um Índio apareceu na cidade.

Era um homem interessante, chamava a atenção das pessoas, principalmente das mulheres que se sentiam atraídas pelo exotismo e carisma que emanava da sua personalidade.

A sua pele morena tinha o cheiro da canela, do nardo e da alfazema.

Se dele fosse a nossa cidade, passeávamo-la juntos, com o cuidado, o desvelo, o carinho que ela merecia.
Mas a sua cidade era outra, era uma cidade fantasma, onde existiam seres que conversavam sem palavras, onde os silêncios submergiam numa dança de amor, em que o abraçar das almas vibrava como se fosse o marulhar de águas profundas e os olhares, mudos, afogavam-se na solidão.


No entanto um dia houve quem tentasse entrar nessa cidade.

Apercebendo-se da sensibilidade, da força de carácter, de toda a ternura que emergia por detrás de toda aquela inóspita paisagem, deixou-se apaixonar por ela e nela se deixou perder...

maria belém

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um silêncio de desejo



Num silêncio feito berço
no âmago da sua alma,
encontrou no sonho a calma
esculpida em forma de terço

Exaltadas as emoções
desfiam-se benditas lembranças,
pulsares plenos d'esperanças
guardadas nos corações

Foi-se por essa vida fora
no sopro exalado plo vento.
Co' um sorriso calado e lento,
vestiu-se de saudade a hora

Escondendo nela o ensejo
do corpo, livre, redimir-se,
deixou a alma despir-se
de um silêncio de desejo

maria belém

sábado, 18 de junho de 2011

O amor


Quando o amor é verdadeiro nada o acaba,
é indelével
e, com o tempo, sublima-se

maria belém

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A palavra feita alma

(imagem da net)

O pudor que sinto inibe qualquer tentativa de te ver, de te tocar, de te amar com a urgência da paixão.

Só me resta a espera, em agonia, da certeza da palavra feita alma.
Esta mitiga e sacia toda a sede, toda a magia de infinito.
De tão íntima, dissolve-se na beatitude existente no côncavo das almas.

O ler-te passou a ser a minha paixão, o meu vício, uma droga que me motiva e me obriga a uma dependência. É um momento mágico da vida que recebo com muita alegria e simplicidade.

O meu reino é o das almas, do amor eterno, dos beijos místicos, da ternura, do repouso secreto, da procura de paz.

Há uma felicidade serena na partilha dos momentos, feitos poema, que me ofereces, como se fosse um passeio, ao fim de tarde, vivido em silêncio e de mãos dadas.

Os meus sentidos, como areia macia, afogam-se nesse leito de palavras arrebatadoras, intensas, únicas,  como se se tratassem de ternos afagos da luz de um olhar ou de uma sombra, indefinida, que passa junto a nós suavemente...

maria belém

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dá-me apenas um sorriso?

(imagem da net)

Viu-o pela primeira vez a caminho do emprego, numa manhã.

Estava sentado na esplanada do café, fitando um telemóvel que segurava nas mãos.
Era magro, o rosto um pouco pálido. Quando levantou os olhos, chocaram com os dela que o observava.

Escolheu uma mesa um pouco afastada da dele, fez o pedido ao empregado e, enquanto esperava, abriu o livro que andava a ler.
Tentou concentrar-se na leitura mas o olhar fugia-lhe para a mesa daquele desconhecido.
Não era um homem bonito mas havia qualquer coisa nele que atraía, talvez o seu ar desamparado, um pouco triste.

Pôs-se a fazer conjecturas.
O que lhe teria acontecido? Teria sido abandonado pela mulher? Não usava aliança mas isso, hoje em dia, não queria dizer nada.
Teria filhos? Quantos anos teria? Talvez uns cinquenta e picos ou sessenta, era difícil de dizer, tanto mais que há homens de trinta e quarenta anos que aparentam ter mais idade enquanto outros, mais velhos, ainda se mostram muito bem conservados.

Tomou o pequeno almoço devagar, era ainda cedo, não precisava apressar-se.

Pressentia nele segredos...

Olhou o relógio, agora sim, eram horas de ir andando...

Levantou-se e, em vez de ir logo embora, caminhou ao seu encontro, foi um impulso, não sabia ainda o que lhe ía dizer.
Quando chegou perto  fez uma pequena pausa à espera de vê-lo levantar a cabeça e olhá-la de sobrolho franzido por tal ousadia mas, para seu espanto, permaneceu imóvel e nem pestanejou.

Parou.

Depois, com cautela, deu um passo em frente e aproximou-se, passo-a-passo, como um felino pronto a saltar sobre a sua presa.
Com o olhar fixo no desconhecido, acercou-se dele que a observava, estupefacto, com um ar de interrogação.

- Posso pedir-lhe um favor?

O homem levantou-se, solícito, e disse:

- Faz favor de dizer.

- Dá-me apenas um sorriso?

Nem queria acreditar no que ouvia, olhou-a, desconfiado, mas ela, apesar de sorridente, não parecia estar a brincar.

Então, perante aquela cena e a pergunta divertida e inusitada, soltou uma gargalhada como há muito tempo não o fazia.

maria belém

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Valerá a pena?

Gauguin

Que desperdício...!


De tempo, de energia, de entrega, de saudade...


Muitas vezes dá com ela a pensar como tudo foi em vão...


                                          Será que amou mesmo?

                                          Será que, em algum dia, ou espaço de tempo, foi amada?


Ou tudo não passou duma ilusão?...


Será que valeu a pena tantos anos de espera?


                                           Para quem?
                                                                              
                                                                 Para si?...

                                                                                     ... e para quê?
                                  
Só o tempo o poderá dizer...

                                             mas...

                                                                valerá a pena?


maria belém