quinta-feira, 30 de junho de 2011

Almas...


«... os encontros mais importantes já foram combinados pelas almas
antes mesmo que os corpos se vejam...»

(Paulo Coelho)

terça-feira, 28 de junho de 2011

...até que um dia... (deixo assim para que cada um que me lê crie um fim segundo a sua imaginação)

João Leitão

Era naquela estação de combóios que se viam todos os dias, à mesma hora.

Olhavam um para o outro, davam os bons dias e cada um seguia o seu caminho.

Durante meses foi este o ritual, até que um dia...

maria belém

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Índio


Um dia um Índio apareceu na cidade.

Era um homem interessante, chamava a atenção das pessoas, principalmente das mulheres que se sentiam atraídas pelo exotismo e carisma que emanava da sua personalidade.

A sua pele morena tinha o cheiro da canela, do nardo e da alfazema.

Se dele fosse a nossa cidade, passeávamo-la juntos, com o cuidado, o desvelo, o carinho que ela merecia.
Mas a sua cidade era outra, era uma cidade fantasma, onde existiam seres que conversavam sem palavras, onde os silêncios submergiam numa dança de amor, em que o abraçar das almas vibrava como se fosse o marulhar de águas profundas e os olhares, mudos, afogavam-se na solidão.


No entanto um dia houve quem tentasse entrar nessa cidade.

Apercebendo-se da sensibilidade, da força de carácter, de toda a ternura que emergia por detrás de toda aquela inóspita paisagem, deixou-se apaixonar por ela e nela se deixou perder...

maria belém

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um silêncio de desejo



Num silêncio feito berço
no âmago da sua alma,
encontrou no sonho a calma
esculpida em forma de terço

Exaltadas as emoções
desfiam-se benditas lembranças,
pulsares plenos d'esperanças
guardadas nos corações

Foi-se por essa vida fora
no sopro exalado plo vento.
Co' um sorriso calado e lento,
vestiu-se de saudade a hora

Escondendo nela o ensejo
do corpo, livre, redimir-se,
deixou a alma despir-se
de um silêncio de desejo

maria belém

sábado, 18 de junho de 2011

O amor


Quando o amor é verdadeiro nada o acaba,
é indelével
e, com o tempo, sublima-se

maria belém

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A palavra feita alma

(imagem da net)

O pudor que sinto inibe qualquer tentativa de te ver, de te tocar, de te amar com a urgência da paixão.

Só me resta a espera, em agonia, da certeza da palavra feita alma.
Esta mitiga e sacia toda a sede, toda a magia de infinito.
De tão íntima, dissolve-se na beatitude existente no côncavo das almas.

O ler-te passou a ser a minha paixão, o meu vício, uma droga que me motiva e me obriga a uma dependência. É um momento mágico da vida que recebo com muita alegria e simplicidade.

O meu reino é o das almas, do amor eterno, dos beijos místicos, da ternura, do repouso secreto, da procura de paz.

Há uma felicidade serena na partilha dos momentos, feitos poema, que me ofereces, como se fosse um passeio, ao fim de tarde, vivido em silêncio e de mãos dadas.

Os meus sentidos, como areia macia, afogam-se nesse leito de palavras arrebatadoras, intensas, únicas,  como se se tratassem de ternos afagos da luz de um olhar ou de uma sombra, indefinida, que passa junto a nós suavemente...

maria belém

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dá-me apenas um sorriso?

(imagem da net)

Viu-o pela primeira vez a caminho do emprego, numa manhã.

Estava sentado na esplanada do café, fitando um telemóvel que segurava nas mãos.
Era magro, o rosto um pouco pálido. Quando levantou os olhos, chocaram com os dela que o observava.

Escolheu uma mesa um pouco afastada da dele, fez o pedido ao empregado e, enquanto esperava, abriu o livro que andava a ler.
Tentou concentrar-se na leitura mas o olhar fugia-lhe para a mesa daquele desconhecido.
Não era um homem bonito mas havia qualquer coisa nele que atraía, talvez o seu ar desamparado, um pouco triste.

Pôs-se a fazer conjecturas.
O que lhe teria acontecido? Teria sido abandonado pela mulher? Não usava aliança mas isso, hoje em dia, não queria dizer nada.
Teria filhos? Quantos anos teria? Talvez uns cinquenta e picos ou sessenta, era difícil de dizer, tanto mais que há homens de trinta e quarenta anos que aparentam ter mais idade enquanto outros, mais velhos, ainda se mostram muito bem conservados.

Tomou o pequeno almoço devagar, era ainda cedo, não precisava apressar-se.

Pressentia nele segredos...

Olhou o relógio, agora sim, eram horas de ir andando...

Levantou-se e, em vez de ir logo embora, caminhou ao seu encontro, foi um impulso, não sabia ainda o que lhe ía dizer.
Quando chegou perto  fez uma pequena pausa à espera de vê-lo levantar a cabeça e olhá-la de sobrolho franzido por tal ousadia mas, para seu espanto, permaneceu imóvel e nem pestanejou.

Parou.

Depois, com cautela, deu um passo em frente e aproximou-se, passo-a-passo, como um felino pronto a saltar sobre a sua presa.
Com o olhar fixo no desconhecido, acercou-se dele que a observava, estupefacto, com um ar de interrogação.

- Posso pedir-lhe um favor?

O homem levantou-se, solícito, e disse:

- Faz favor de dizer.

- Dá-me apenas um sorriso?

Nem queria acreditar no que ouvia, olhou-a, desconfiado, mas ela, apesar de sorridente, não parecia estar a brincar.

Então, perante aquela cena e a pergunta divertida e inusitada, soltou uma gargalhada como há muito tempo não o fazia.

maria belém

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Valerá a pena?

Gauguin

Que desperdício...!


De tempo, de energia, de entrega, de saudade...


Muitas vezes dá com ela a pensar como tudo foi em vão...


                                          Será que amou mesmo?

                                          Será que, em algum dia, ou espaço de tempo, foi amada?


Ou tudo não passou duma ilusão?...


Será que valeu a pena tantos anos de espera?


                                           Para quem?
                                                                              
                                                                 Para si?...

                                                                                     ... e para quê?
                                  
Só o tempo o poderá dizer...

                                             mas...

                                                                valerá a pena?


maria belém

sábado, 11 de junho de 2011

A árvore donde nasciam pássaros

(Imagem retirada da Net)
Era uma vez uma árvore cujos ramos, em vez de verdes folhas, estavam cobertos de pássaros.

Cada tronco ramificava-se em vários e estreitos ramos e, em cada um destes, por meio de metamorfose, transformavam-se, para a vida, vários pássaros de todas as cores.
Eles eram vermelhos, azuis, amarelos, verdes, cor de laranja, roxos... tinham todas as cores do arco-íris.

A sua copa, arredondada e rendilhada, estava vestida e enfeitada por uma bela plumagem multi-colorida.

Havia quem dissesse que estes pequenos pássaros eram fruto do amor proibido entre a árvore e um arco-íris que um dia, por ali, surgiu no céu.

De facto conheceram-se num dia de chuva, tristonho e lamacento, em que um raio de Sol, envergonhado, se escondeu por detrás das nuvens.

De repente ele apareceu no céu, uma estrada colorida, alegre e brilhante que, num desejo ardente e em desatino, a abraçou, enquanto ela o olhava extasiada.
Sentindo a alma desfeita em lágrimas perante tal beleza, deixou-se enfeitiçar e prender nas promessas daquele amor, despindo-se das suas vestes de candura.


O destino quis que, ao fim de uns meses, as suas folhas caíssem e, no seu lugar, começassem a rebentar pequenos casulos donde, mais tarde, haviam de saír, esvoaçando, pequenos pássaros coloridos.

Era uma imagem de maravilha e de espanto, no olhar, para quem a observava mas a nossa árvore em vez de se sentir orgulhosa, vivia uma calada tristeza.
Daquele amor só lhe tinham ficado imagens passageiras, lembranças fugidias pois tudo o que passou não voltaria mais.
O seu segredo, esse, estava bem à vista de todos, com graça e beleza a cintilar.

Todas as suas companheiras árvores a tinham abandonado; desprezavam-na e ela que outrora trazia o mundo no coração, hoje arrastava-se pela vida, inquieta, insegura, sem ninguém.

Com o tempo acabou por se esquecer de chorar, de viver, para viver só e unicamente para aqueles pequenos seres emplumados que a procuravam para se aninhar e proteger.


Seus filhos cresceram, fizeram seus próprios ninhos e a sua alma, antes tão verde, tão viçosa, entregou-se nos braços do tempo e aí se deixou adormecer como um pássaro sem desejo, sem qualquer crença.

maria belém

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Deixa que te conte a minha história...

Barbarela

Deixa que te conte a minha história...

                        sou pastora de ilusões, no meu pensamento entrelaçam-se lembranças com sonhos.


Levo os meus pensamentos a pastorear no campo florido que foi tua palavra, soltando, por vezes, queixumes contra ti...

                                                          que insensatez...!

Não fizeste mais do que acordar o meu entendimento arrebatado, cingir com o fogo das palavras a minha ardente alma e esta, agradecida, deu-te toda a doçura que o amor pode dar.


Ainda que de ti esteja ausente e distante, é por ti que vivo, contra o meu gosto, minha triste fantasia...

Vou semeando sentimentos por páginas em branco, desertas...

No teu lugar, um silêncio vem ao meu encontro

                                                           num sonho a nascer e já desfeito.


maria belém

terça-feira, 7 de junho de 2011

Que reste-t-il de nos amours


(Charles Trénet)


Ce soir le vent qui frappe à ma porte
me parle des amours mortes
devant le feu qui s'éteint.
Ce soir c'est une chanson d'automne
dans la maison qui frissonne
et je pense aux jours lointains


[Refrain:]

Que reste-t-il de nos amours
que reste-t-il de ces beaux jours
une photo, vieille photo
de ma jeunesse

Que reste-t-il des billets doux
des mois d'avril, des rendez-vous
un souvenir qui me poursuit
sans cesse

Bonner fané, cheveux au vent
baisers volés, rêves mouvants
Que reste-t-il de tout cela
dites-le-moi

Un petit village, un vieux clocher
un paysage si bien caché
et dans un nuage le cher visage
de mon passé


Les mots, les mots tendres qu'on murmure
les caresses les plus pures
les serments au fond des bois
les fleurs qu'on retrouve dans un livre
dont le parfum vous enivre
se sont envolés porquoi?

[au refrain]

Letra: Charles Trénet - Música: Léo Chauliac 1942

domingo, 5 de junho de 2011

E eu que só queria que me convidasses para almoçar...


Ouço o silêncio que me rodeia, olho nos olhos o espelho e estremeço de dor por ter amado uma forma final do amor.

Fico a olhar-me, maquilho a boca de vermelho. É na polpa dos meus lábios que o vermelho do batom se insinua, como sorriso feito desejo.
Mordo os lábios e deixo o espírito vaguear...

Vejo-te longe, o vento a acariciar o teu rosto, fatias de sonhos a passearem nos teus olhos e esta mesma lua que me ilumina, a mim, a impregnar-te da sua beleza.

Quando se ama, pouco basta para suportar a separação... que respiremos o mesmo ar... que pisemos o mesmo chão desenhado de palavras mágicas.

Não é no que dizem as palavras mas no que dizem sem dizê-lo que descobrimos o segredo do desejo que paira nesse silêncio feito entrelinhas.


Mas...

               ... os nossos pensamentos, entrelaçados, esfumaram-se...

               ... o salto para o afecto, faltou...

               ... a tua mão, na minha, abriu-se...

               ... e o que dizes, mal entendo.


Aos poucos fui morrendo de enganos...


e eu que só queria que me convidasses para almoçar...


maria belém

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Jacarandá


O vento, ligeiro, abanava os troncos das árvores e a bela Jacarandá retraía-se involuntariamente.

Enquanto outras árvores apresentavam um ar desgrenhado e pouco atraente, ela era como a alma de uma jovem, exaltada e perturbada com o perfume do amor que o seu cabelo lilás exalava.

Todos que para ela olhavam, ficavam embriagados com tal esplendor, os olhos orvalhavam-se de lágrimas, benditas, agradecendo tão bela visão.

A Jacarandá percebia que era a mais admirada de todas as árvores que a acompanhavam naquele edénico jardim e isso envaidecia-a.

Estava sempre a ajeitar as pregas dos cachos que cobriam os seus braços, a tocar a sua pele acetinada e fresca, a pentear a sua luxuriante cabeleira lilás.

Orgulhosa, mostrava, aos passantes, a sua estonteante beleza.

As outras árvores, embora belas, não se lhe comparavam e todas a invejavam um pouco.

A Primavera e o Verão foram passados numa grande exaltação, amou, foi amada com paixão, a sua beleza vistosa, envolvente, abraçava com meiguice os olhares que atraía para si.
Só o presente era vivo, a alma pulsava numa ânsia louca de se entregar, de vir a encontrar  o coração que a viesse a amar com ardor, com amor...


Mas o Outono chegou e com ele as primeiras chuvas e o vento que lhe arrancava os belos cabelos de seda lilás; os seus olhos, marejados de lágrimas, viam como a Natureza pode ser caprichosa.

Ali estava ela, esquecida, os seus braços, antes tão belos, a começarem a ficar nus.
No entanto percebeu que a água da chuva, caindo, era uma outra forma de beleza, uma nova paisagem, procurada e cobiçada por alguns que, na vida, a vão sonhando.

De repente, em ânsias, vê como à sua volta, no chão, se formou um lindo tapete de cor lilás; surgia, assim, um bonito quadro, oferecido pela Natureza, que nem a pintura de um artista conseguiria igualar.

A tristeza que a sua alma, inquieta, começava a sentir, desapareceu, os olhos toldaram-se-lhe de vivo pranto ao aperceber-se de que o presente e o passado estarão sempre vivos e serão simplesmente beleza.


Então, altaneira, ergueu os braços ao céu e feliz, percorrendo com o olhar o horizonte, agradeceu o belo que deu à Natureza.

maria belém