Era uma vez uma árvore cujos ramos, em vez de verdes folhas, estavam cobertos de pássaros.
Cada tronco ramificava-se em vários e estreitos ramos e, em cada um destes, por meio de metamorfose, transformavam-se, para a vida, vários pássaros de todas as cores.
Eles eram vermelhos, azuis, amarelos, verdes, cor de laranja, roxos... tinham todas as cores do arco-íris.
A sua copa, arredondada e rendilhada, estava vestida e enfeitada por uma bela plumagem multi-colorida.
Havia quem dissesse que estes pequenos pássaros eram fruto do amor proibido entre a árvore e um arco-íris que um dia, por ali, surgiu no céu.
De facto conheceram-se num dia de chuva, tristonho e lamacento, em que um raio de Sol, envergonhado, se escondeu por detrás das nuvens.
De repente ele apareceu no céu, uma estrada colorida, alegre e brilhante que, num desejo ardente e em desatino, a abraçou, enquanto ela o olhava extasiada.
Sentindo a alma desfeita em lágrimas perante tal beleza, deixou-se enfeitiçar e prender nas promessas daquele amor, despindo-se das suas vestes de candura.
O destino quis que, ao fim de uns meses, as suas folhas caíssem e, no seu lugar, começassem a rebentar pequenos casulos donde, mais tarde, haviam de saír, esvoaçando, pequenos pássaros coloridos.
Era uma imagem de maravilha e de espanto, no olhar, para quem a observava mas a nossa árvore em vez de se sentir orgulhosa, vivia uma calada tristeza.
Daquele amor só lhe tinham ficado imagens passageiras, lembranças fugidias pois tudo o que passou não voltaria mais.
O seu segredo, esse, estava bem à vista de todos, com graça e beleza a cintilar.
Todas as suas companheiras árvores a tinham abandonado; desprezavam-na e ela que outrora trazia o mundo no coração, hoje arrastava-se pela vida, inquieta, insegura, sem ninguém.
Com o tempo acabou por se esquecer de chorar, de viver, para viver só e unicamente para aqueles pequenos seres emplumados que a procuravam para se aninhar e proteger.
Seus filhos cresceram, fizeram seus próprios ninhos e a sua alma, antes tão verde, tão viçosa, entregou-se nos braços do tempo e aí se deixou adormecer como um pássaro sem desejo, sem qualquer crença.
maria belém