sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Jacarandá


O vento, ligeiro, abanava os troncos das árvores e a bela Jacarandá retraía-se involuntariamente.

Enquanto outras árvores apresentavam um ar desgrenhado e pouco atraente, ela era como a alma de uma jovem, exaltada e perturbada com o perfume do amor que o seu cabelo lilás exalava.

Todos que para ela olhavam, ficavam embriagados com tal esplendor, os olhos orvalhavam-se de lágrimas, benditas, agradecendo tão bela visão.

A Jacarandá percebia que era a mais admirada de todas as árvores que a acompanhavam naquele edénico jardim e isso envaidecia-a.

Estava sempre a ajeitar as pregas dos cachos que cobriam os seus braços, a tocar a sua pele acetinada e fresca, a pentear a sua luxuriante cabeleira lilás.

Orgulhosa, mostrava, aos passantes, a sua estonteante beleza.

As outras árvores, embora belas, não se lhe comparavam e todas a invejavam um pouco.

A Primavera e o Verão foram passados numa grande exaltação, amou, foi amada com paixão, a sua beleza vistosa, envolvente, abraçava com meiguice os olhares que atraía para si.
Só o presente era vivo, a alma pulsava numa ânsia louca de se entregar, de vir a encontrar  o coração que a viesse a amar com ardor, com amor...


Mas o Outono chegou e com ele as primeiras chuvas e o vento que lhe arrancava os belos cabelos de seda lilás; os seus olhos, marejados de lágrimas, viam como a Natureza pode ser caprichosa.

Ali estava ela, esquecida, os seus braços, antes tão belos, a começarem a ficar nus.
No entanto percebeu que a água da chuva, caindo, era uma outra forma de beleza, uma nova paisagem, procurada e cobiçada por alguns que, na vida, a vão sonhando.

De repente, em ânsias, vê como à sua volta, no chão, se formou um lindo tapete de cor lilás; surgia, assim, um bonito quadro, oferecido pela Natureza, que nem a pintura de um artista conseguiria igualar.

A tristeza que a sua alma, inquieta, começava a sentir, desapareceu, os olhos toldaram-se-lhe de vivo pranto ao aperceber-se de que o presente e o passado estarão sempre vivos e serão simplesmente beleza.


Então, altaneira, ergueu os braços ao céu e feliz, percorrendo com o olhar o horizonte, agradeceu o belo que deu à Natureza.

maria belém

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