Enquanto outras árvores apresentavam um ar desgrenhado e pouco atraente, ela era como a alma de uma jovem, exaltada e perturbada com o perfume do amor que o seu cabelo lilás exalava.
Todos que para ela olhavam, ficavam embriagados com tal esplendor, os olhos orvalhavam-se de lágrimas, benditas, agradecendo tão bela visão.
A Jacarandá percebia que era a mais admirada de todas as árvores que a acompanhavam naquele edénico jardim e isso envaidecia-a.
Estava sempre a ajeitar as pregas dos cachos que cobriam os seus braços, a tocar a sua pele acetinada e fresca, a pentear a sua luxuriante cabeleira lilás.
Orgulhosa, mostrava, aos passantes, a sua estonteante beleza.
As outras árvores, embora belas, não se lhe comparavam e todas a invejavam um pouco.
A Primavera e o Verão foram passados numa grande exaltação, amou, foi amada com paixão, a sua beleza vistosa, envolvente, abraçava com meiguice os olhares que atraía para si.
Só o presente era vivo, a alma pulsava numa ânsia louca de se entregar, de vir a encontrar o coração que a viesse a amar com ardor, com amor...
Mas o Outono chegou e com ele as primeiras chuvas e o vento que lhe arrancava os belos cabelos de seda lilás; os seus olhos, marejados de lágrimas, viam como a Natureza pode ser caprichosa.
Ali estava ela, esquecida, os seus braços, antes tão belos, a começarem a ficar nus.
No entanto percebeu que a água da chuva, caindo, era uma outra forma de beleza, uma nova paisagem, procurada e cobiçada por alguns que, na vida, a vão sonhando.
De repente, em ânsias, vê como à sua volta, no chão, se formou um lindo tapete de cor lilás; surgia, assim, um bonito quadro, oferecido pela Natureza, que nem a pintura de um artista conseguiria igualar.
A tristeza que a sua alma, inquieta, começava a sentir, desapareceu, os olhos toldaram-se-lhe de vivo pranto ao aperceber-se de que o presente e o passado estarão sempre vivos e serão simplesmente beleza.
Então, altaneira, ergueu os braços ao céu e feliz, percorrendo com o olhar o horizonte, agradeceu o belo que deu à Natureza.
maria belém

Sem comentários:
Enviar um comentário