São mãos semelhantes a tantas outras, amaram com paixão, com fervor, com ternura, acarinharam, trabalharam, gesticularam, disseram adeus com o coração partido ou acenaram, felizes, numa chegada, num reencontro.
Apertaram mãos com afeto, algumas por cerimónia e outras, até, sem vontade de o fazer.
Fizeram o gesto de «Namastê», algumas vezes, nas visitas à Índia.
Agarraram pessoas queridas ao abraçá-las, afagaram outras mãos com doçura, deixaram as suas serem tomadas numa carícia.
Seguraram o seio para alimentar os filhos, pegaram-lhes ao colo para os embalar numa canção de «ninar» ou para lhes aliviar qualquer dor que os atormentasse. Mesmo quando mais crescidos, passaram os dedos, suavemente, num afago, pelos cabelos, pelos rostos, para lhes minimizar as dores e transmitir força e coragem.
Deram banho e vestiram os filhos e, mais tarde, os progenitores quando, idosos e doentes, já não o conseguiam fazer sozinhos.
Cuidaram e acarinharam os animais e as flores da casa.
Pegaram, manhã cedo, o volante do carro para levarem os filhos à escola e, depois, à pressa, seguirem para o trabalho, para, no fim da tarde, fazerem a volta ao contrário.
Prepararam refeições com amor e cuidado, transportaram pesados sacos de compras como se fossem formigas a encher o celeiro.
Ainda são do tempo em que se escreviam cartas de amor e aos amigos e familiares cartas a desejar boas festas ou a saber como se encontravam.
Rabiscaram, até uma dada altura, no papel, tudo o que lhes ía na alma, depois teclaram numa máquina de escrever, primeiro manual, depois elétrica e, por fim, aderiram, sem muita convicção no início, ao computador.
Seguraram, com carinho, livros que as levaram, num sonho, por esse mundo fora, embrenhando-se nos seus enredos até altas horas.
Até se atreveram, por vezes, a desenhar e pintalgar um ou outro quadro.
Nunca se habituaram a usar luvas para as protegerem dos trabalhos domésticos, precisavam sentir o que estavam a fazer.
Sempre gostaram de se verem bem tratadas mas nunca se habituaram a usar verniz vermelho ou de outra cor nas suas unhas, embora gostassem de ver noutras mãos. Nas suas parecia-lhes esquisito, tentaram algumas vezes mas era como se fossem outras, impessoais, como se não fossem elas.
Bem que a manicura, quando ía ao cabeleireiro, tentava pintá-las mas acabava, sempre, por lhes pôr um verniz transparente para lhes dar um pouco de brilho.
Quando eram mais novas, com os filhos pequenos, pensavam que talvez mais tarde gostassem, mas o tempo foi passando e elas sempre adiando.
Agora, já mais velhas, continuam a pensar que o que lhes fica bem é aquele brilhozinho discreto que as enfeitam sem dar nas vistas.
Afinal ninguém as conhece tão bem como elas, podem não ser as mãos mais perfeitas, mas são mãos que viveram intensamente e que estão sempre disponíveis para ajudar quem precisa e a segurar, nas suas, outras mãos falhas de afeto.
maria belém