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Tragada pela dor branca e fria,
A saudade, ficando em mim sombria,
Soluça nesta noite em sofrimento
Corpo, vidraça d'alma dolorosa,
Ardendo em labaredas crepitantes,
Imagina-se nos sonhos amantes
De desejos, febre misteriosa...
Memórias -como perfume dum beijo-
Deixam nas nossas bocas um latejo,
Inquietudes assentes no amar
O doce alento -vinho adocicado-
Embriaga, como sonho doirado,
Os corações plo mundo a esvoaçar...
maria belém
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1 comentário:
INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa
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