terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um adeus anunciado


Fomos caminhantes da vida, estava escrito que nos havíamos de encontrar.

Porquê?...
                                              Não sei...


Enchi o meu coração com o teu silêncio enquanto a noite, iluminada pelas estrelas, se curvava pacientemente.

Esperei que amanhecesse, a noite desaparecesse e que a tua voz fosse como uma chuva de palhetas de ouro arrebatando o céu.

Mas este caminho não era para mim.

Muitas vezes me perguntei:

                                           «Em que lugar solitário me esperas?»

Procurei-te na música ondulante do mar, nas nuvens, nas sombras que brincam na água, no luar, nas praias do infinito...

Nunca corri para me encontrar contigo mas a dúvida consome-me:

                    Será que alguma vez ouvi o teu apelo ou no ar existiu, sempre, um adeus anunciado?

maria belém


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A rosa vermelha


Era uma rosa desabrochada, não um botão em flor, a sua corola de pétalas vermelhas, cor da paixão, enfeitavam-na, fazendo dela, ainda, uma bonita rosa.

Vivia no jardim entre várias flores a quem o seu perfume, a sua alegria contagiante, dava esperança de futuros dias amenos, de coloridos dias de paz.

Com fantasia e amor ía criando um ambiente caloroso e cheio de luz.

Quem a visse diria não haver rosa mais feliz, a quem não faltava encanto, beleza, amizade e companheirismo das outras flores. E assim era, no entanto, só ela sabia com que sacrifício dava alento às suas companheiras.
Não percebia o que se passava mas, já há algum tempo, sentia a sua alma melancólica, solitária, como se estivesse a morrer aos poucos. À noite chorava baixinho para não acordar nem preocupar as outras flores que lhe queriam tanto.

A pouco e pouco, as suas companheiras, de jardim, começaram a aperceber-se de que algo não estava bem.

Quando amanhecia, as pétalas da sua querida rosa, outrora tão viçosas, tão vermelhas, mostravam-se pálidas e um tanto murchas.

Tentavam animá-la sem o conseguirem.

Uma manhã, ao acordarem, deram com ela caída no solo, inanimada.

Sem o seu viço e perfume, a bonita rosa vermelha tinha-se entregue nos braços da terra que a acolheu com todo o amor.

maria belém 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mãos


São mãos semelhantes a tantas outras, amaram com paixão, com fervor, com ternura, acarinharam, trabalharam, gesticularam, disseram adeus com o coração partido ou acenaram, felizes, numa chegada, num reencontro.

Apertaram mãos com afeto, algumas por cerimónia e outras, até, sem vontade de o fazer.

Fizeram o gesto de «Namastê», algumas vezes, nas visitas à Índia.

Agarraram pessoas queridas ao abraçá-las, afagaram outras mãos com doçura, deixaram as suas serem tomadas numa carícia.

Seguraram o seio para alimentar os filhos, pegaram-lhes ao colo para os embalar numa canção de «ninar» ou para lhes aliviar qualquer dor que os atormentasse. Mesmo quando mais crescidos, passaram os dedos, suavemente, num afago, pelos cabelos, pelos rostos, para lhes minimizar as dores e transmitir força e coragem.
Deram banho e vestiram os filhos e, mais tarde, os progenitores quando, idosos e doentes, já não o conseguiam fazer sozinhos.

Cuidaram e acarinharam  os animais e as flores da casa.

Pegaram, manhã cedo, o volante do carro para levarem os filhos à escola e, depois, à pressa, seguirem para o trabalho, para, no fim da tarde, fazerem a volta ao contrário.

Prepararam refeições com amor e cuidado, transportaram pesados sacos de compras como se fossem formigas a encher o celeiro.

Ainda são do tempo em que se escreviam cartas de amor e aos amigos e familiares cartas a desejar boas festas ou a saber como se encontravam.

Rabiscaram, até uma dada altura, no papel, tudo o que lhes ía na alma, depois teclaram numa máquina de escrever, primeiro manual, depois elétrica e, por fim, aderiram, sem muita convicção no início, ao computador.

Seguraram, com carinho, livros que as levaram, num sonho, por esse mundo fora, embrenhando-se nos seus enredos até altas horas.

Até se atreveram, por vezes, a desenhar e pintalgar um ou outro quadro.

Nunca se habituaram a usar luvas para as protegerem dos trabalhos domésticos, precisavam sentir o que estavam a fazer.

Sempre gostaram de se verem bem tratadas mas nunca se habituaram a usar verniz vermelho ou de outra cor nas suas unhas, embora gostassem de ver noutras mãos. Nas suas parecia-lhes esquisito, tentaram algumas vezes mas era como se fossem outras, impessoais, como se não fossem elas.
Bem que a manicura, quando ía ao cabeleireiro, tentava pintá-las mas acabava, sempre, por lhes pôr um verniz transparente para lhes dar um pouco de brilho.
Quando eram mais novas, com os filhos pequenos, pensavam que talvez mais tarde gostassem, mas o tempo foi passando e elas sempre adiando.
Agora, já mais velhas, continuam a pensar que o que lhes fica bem é aquele brilhozinho discreto que as enfeitam sem dar nas vistas.
Afinal ninguém as conhece tão bem como elas, podem não ser as mãos mais perfeitas, mas são mãos que viveram intensamente e que estão sempre disponíveis para ajudar quem precisa e a segurar, nas suas, outras mãos falhas de afeto.

maria belém