terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mãos


São mãos semelhantes a tantas outras, amaram com paixão, com fervor, com ternura, acarinharam, trabalharam, gesticularam, disseram adeus com o coração partido ou acenaram, felizes, numa chegada, num reencontro.

Apertaram mãos com afeto, algumas por cerimónia e outras, até, sem vontade de o fazer.

Fizeram o gesto de «Namastê», algumas vezes, nas visitas à Índia.

Agarraram pessoas queridas ao abraçá-las, afagaram outras mãos com doçura, deixaram as suas serem tomadas numa carícia.

Seguraram o seio para alimentar os filhos, pegaram-lhes ao colo para os embalar numa canção de «ninar» ou para lhes aliviar qualquer dor que os atormentasse. Mesmo quando mais crescidos, passaram os dedos, suavemente, num afago, pelos cabelos, pelos rostos, para lhes minimizar as dores e transmitir força e coragem.
Deram banho e vestiram os filhos e, mais tarde, os progenitores quando, idosos e doentes, já não o conseguiam fazer sozinhos.

Cuidaram e acarinharam  os animais e as flores da casa.

Pegaram, manhã cedo, o volante do carro para levarem os filhos à escola e, depois, à pressa, seguirem para o trabalho, para, no fim da tarde, fazerem a volta ao contrário.

Prepararam refeições com amor e cuidado, transportaram pesados sacos de compras como se fossem formigas a encher o celeiro.

Ainda são do tempo em que se escreviam cartas de amor e aos amigos e familiares cartas a desejar boas festas ou a saber como se encontravam.

Rabiscaram, até uma dada altura, no papel, tudo o que lhes ía na alma, depois teclaram numa máquina de escrever, primeiro manual, depois elétrica e, por fim, aderiram, sem muita convicção no início, ao computador.

Seguraram, com carinho, livros que as levaram, num sonho, por esse mundo fora, embrenhando-se nos seus enredos até altas horas.

Até se atreveram, por vezes, a desenhar e pintalgar um ou outro quadro.

Nunca se habituaram a usar luvas para as protegerem dos trabalhos domésticos, precisavam sentir o que estavam a fazer.

Sempre gostaram de se verem bem tratadas mas nunca se habituaram a usar verniz vermelho ou de outra cor nas suas unhas, embora gostassem de ver noutras mãos. Nas suas parecia-lhes esquisito, tentaram algumas vezes mas era como se fossem outras, impessoais, como se não fossem elas.
Bem que a manicura, quando ía ao cabeleireiro, tentava pintá-las mas acabava, sempre, por lhes pôr um verniz transparente para lhes dar um pouco de brilho.
Quando eram mais novas, com os filhos pequenos, pensavam que talvez mais tarde gostassem, mas o tempo foi passando e elas sempre adiando.
Agora, já mais velhas, continuam a pensar que o que lhes fica bem é aquele brilhozinho discreto que as enfeitam sem dar nas vistas.
Afinal ninguém as conhece tão bem como elas, podem não ser as mãos mais perfeitas, mas são mãos que viveram intensamente e que estão sempre disponíveis para ajudar quem precisa e a segurar, nas suas, outras mãos falhas de afeto.

maria belém

1 comentário:

skocky disse...

DOIS EXCERTOS DE ODES
(FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE)

Vem, Noite antiquíssima e idêntica.
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo,
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados.
Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
...............................

ÁLVARO DE CAMPOS