segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Quando me perderes...


Quando me perderes
procura-me no âmago do teu silêncio,
nas palavras que ficaram por dizer,
na ausência de gestos simples, como o toque da ponta dos dedos,
no vácuo terrível da tristeza,
nas músicas gastas por tanto as ouvires,
no fundo dos teus olhos cheios de magia,
no sorriso amargo-doce de outras mulheres,
na luz difusa de um sonho,
na saudade do que nunca existiu,
no desejo de me ver junto a ti,
no perfume de uma flor que o vento beija docemente,
nos muitos momentos que estivemos juntos, mesmo que só em pensamento...


Se não me encontrares
procura dentro da tua alma,
estarei lá a fazer-te companhia.


maria belém

1 comentário:

skocky disse...

Iniciação
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais:
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ’stãs morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.

Presença, nº 35, Maio, 1932.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas

Alcyone