segunda-feira, 12 de setembro de 2011

E se fosses a minha maré cheia?


Se fosses a minha maré cheia, mar que me embalaria no vai-vem das suas vagas, ora me abraçando, ora me deixando,
                            
                           ficaria à espera, de olhos semi-cerrados, que uma nova vaga, feita de doçura e piedade, viesse afagar minha alma, lambendo-a com seus lábios húmidos de espuma, ansiosos, deixando-a arrepiada de desejo...

depois voltaria a deixar-me...

                            mas, com a força e a fúria da saudade, correria novamente para mim, enrolando-me nos seus longos e esbeltos braços, palpitante e ondeante, revolteando-me num remoínho de prazer.

Ao meu redor  far-se-ia silêncio.

Como um berço onde a vida nos pousa, dormiria, num abraço lânguido e doce, por toda a eternidade.

mariabelém

2 comentários:

skocky disse...

Fernando Pessoa
Em torno a mim, em maré cheia,

Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26-4-1926

maria belem disse...

Obrigada, Skocky, por partilhar comigo mais um belo poema de Fernando Pessoa. Obrigada, tb, pelos comentários que me têm sido deixados por si.
Abraço