sábado, 21 de maio de 2011

O chá


O telefone tocou e, do outro lado, uma voz suave, repousante, de tons graves, aveludados, atendeu.

Era só uma voz, sem rosto, sem corpo, que dizia muito da pessoa que a possuía.

Há vozes assim, cativantes, hipnotizantes, que soam nos ouvidos como música e que fazem com que, de imediato, simpatizemos com o seu dono.


Há muito tempo que não o ouvia, a vida tinha-os separado, o que acontece muitas vezes apesar do que possam ter sentido um pelo outro.

Durante uns segundos ficou calada, tinha esquecido como se emocionava sempre que o ouvia.

Finalmente falou: «não sei se ainda te lembras de mim...»

Não a deixou continuar: «lembro-me perfeitamente, estás bem?»

«Sim, estou, e tu como estás?»

«Também estou bem, mais amadurecido, talvez...»

«Os anos passam quer queiramos ou não e a vida encarrega-se de amadurecer ideias e de suavizar certas atitudes, antes muito radicais», disse ela e prosseguiu:

«Tenho estado a viver fora de Portugal e ao ver o teu número de telefone, numa agenda antiga, pensei que gostaria de tentar falar contigo. Tive sorte, ainda tens o mesmo número»

«Ainda bem que o fizeste porque gostei de te ouvir. Será possível encontrarmo-nos para tomar um chá?»

«Sim, um chá...

de rútila essência de quimera»


maria belém




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