O telefone tocou e, do outro lado, uma voz suave, repousante, de tons graves, aveludados, atendeu.
Era só uma voz, sem rosto, sem corpo, que dizia muito da pessoa que a possuía.
Há vozes assim, cativantes, hipnotizantes, que soam nos ouvidos como música e que fazem com que, de imediato, simpatizemos com o seu dono.
Há muito tempo que não o ouvia, a vida tinha-os separado, o que acontece muitas vezes apesar do que possam ter sentido um pelo outro.
Durante uns segundos ficou calada, tinha esquecido como se emocionava sempre que o ouvia.
Finalmente falou: «não sei se ainda te lembras de mim...»
Não a deixou continuar: «lembro-me perfeitamente, estás bem?»
«Sim, estou, e tu como estás?»
«Também estou bem, mais amadurecido, talvez...»
«Os anos passam quer queiramos ou não e a vida encarrega-se de amadurecer ideias e de suavizar certas atitudes, antes muito radicais», disse ela e prosseguiu:
«Tenho estado a viver fora de Portugal e ao ver o teu número de telefone, numa agenda antiga, pensei que gostaria de tentar falar contigo. Tive sorte, ainda tens o mesmo número»
«Ainda bem que o fizeste porque gostei de te ouvir. Será possível encontrarmo-nos para tomar um chá?»
«Sim, um chá...
de rútila essência de quimera»
maria belém

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