segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cartas de amor


Já não se escrevem cartas de amor.

Agora enviam-se emails ou mensagens, via telemóvel, com palavras entrecortadas como se a própria escrita se sentisse envergonhada e soluçasse de saudade.


Uma carta de amor era como um botão de flor, segurava-se ternamente, aconchegava-se ao peito, inalava-se o seu perfume e, na noite de estrelas matizadas, numa ânsia juvenil, sonhava-se com cada palavra a voltear, a flutuar em espirais feitas espuma, sonhos a rasgar o véu de uma névoa de saudade.
E o vento da felicidade vinha acariciar, indolente, as madeixas de cabelo que caíam sobre o vestido, enquanto os rostos se afogueavam.

As palavras, como dardos amorosos, deixavam nos corações uma centelha de sonho que despertava para a vida.
Saboreava-se com os olhos, em deleite, cada palavra como se a folha de papel fosse o firmamento e as palavras fossem a luz com que o amado a salpicava.

Na madrugada luminosa, sobre a página de uma resposta, um coração, acalentado pelo mesmo sonho, voava penetrando nas nuvens do futuro.

maria belém

3 comentários:

skocky disse...

Este magnífico texto é uma carta de amor...Amor e saudade! Neste meu tempo, sem tempo para me deter na beleza sublime do que escreve, ´voo penetrando nas nuvens do futuro` !
Bem haja pelo alento proporcionado pela delicadeza do que escreve: ´uma centelha de sonho que desperta para a vida`...

Maria Belém disse...

Embora não seja muito saudosista há algumas coisas que me deixam na saudade. Parece-me que a beleza, nalguns aspectos da vida, se esfumou um pouco.
Abraço

skocky disse...

Saudades tenho do ´Futuro Anterior`, como no ´Realismo Fantástico` ...

Saudades tenho das cartas de amor, que refere no seu texto de modo tão autêntico,requintado e esteticamente conseguido!

Sinais dos tempos, como refere o
´Vishnu Purana`?!...

Bem haja!
Agradecido abraço